Pediatria

Cada criança tem seu tempo para aprender

Publicado em 21/09/2017

Um dos grandes desafios enfrentados pelos pais e pelos próprios filhos é a comparação com os amiguinhos ou colegas da mesma idade. Esse é um problema que pode afetar o aprendizado das crianças. É preciso saber que cada criança tem seu tempo para aprender as coisas e não necessariamente todas aprenderão da mesma forma e com a mesma idade.

Para ajudar a refletir, nada melhor do que ter uma orientação profissional. Nesse sentido, a psicóloga Raquel Lizandro recomenda: “é preciso considerar a particularidade de cada criança e sua forma de aprender. Na escola, por exemplo, tem criança que vai ler uma vez e entender a matéria, outra vai precisar ler duas, três, outra vai precisar que a professora leia junto a ela para conseguir compreender, e isso não quer dizer que exista aí uma dificuldade de aprendizagem”, conta.

Raquel  lembra que há dois tipos de desenvolvimento: o biológico e o psíquico. O desenvolvimento biológico estabelece uma borda, um limite para a criança, mas ele não determina quem vai ser esse sujeito.

Segundo ela, o Ministério da Saúde possui um manual de indicadores que é utilizado pela Atenção Básica (Saúde da Criança – Acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil) e que pode servir de base para o desenvolvimento. Ele indica como o desenvolvimento deve acontecer, por exemplo, dentro de um determinado período a criança deve sentar, falar, andar. Esses dados servem de base para que se tenha atenção caso as coisas não ocorram dentro do período estipulado. Os indicadores não são determinantes, pois isso não interfere necessariamente no desenvolvimento quando a criança tiver dez anos, por exemplo. Mas cada fase deve ser acompanhada e avaliada junto aos profissionais de saúde e educação. Os pais precisam estar atentos, quanto mais cedo as intervenções forem feitas, melhores serão os resultados.”

 

 

Diagnósticos equivocados

Raquel enfatiza que hoje em dia há um aumento assustador nos diagnósticos de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), sendo que muitas vezes esse diagnóstico não é feito de forma adequada. Isso pode ocorrer por questões comerciais, falta de conhecimento e compreensão do quadro, e também pela dificuldade que as escolas têm de lidar com as crianças de hoje. Com o avanço da tecnologia e a entrada das crianças cada vez mais cedo em centros de educação infantil, o nível de informação e estímulos a que esta criança é submetida é muito diferente de 20 anos atrás, no entanto, pouco mudou nas práticas educacionais. A psicóloga conta que o diagnóstico errado pode trazer consequências graves, como tratamentos inadequados, medicalização, rotulação e o aprisionamento desta criança em um círculo de cuidados que o impede se desenvolver de forma autônoma.

 

Família e escola

Raquel ressalta que a comparação pode ser saudável também. “Ela é importante até para que a própria criança entenda que cada pessoa é singular, a criança se reconhece enquanto sujeito à medida que entra em contato com outros iguais, no caso crianças que são diferentes dela. Pode ser prejudicial, quando cobradas a serem iguais e a obterem os mesmos resultados das demais”, complementa.

A psicóloga lembra que durante a graduação, os profissionais que trabalham nas instituições de ensino têm acesso às informações e recebem a formação para lidar com casos que requerem atenção especial. Mas o problema é que, na prática, cada escola tem um modelo a ser seguido. “A avaliação das crianças deveria ser uma avaliação da instituição, do que estão conseguindo transmitir, mas o que vemos são crianças sendo avaliadas todas da mesma forma, sem levar em conta nenhum tipo de particularidade. Da forma como acontece, a escola não precisa se perguntar sobre seu ensino e toda a dificuldade de aprendizagem recai sobre a criança”, destaca.

Ao mesmo tempo, na maioria dos casos é com a entrada na escola que muitas dificuldades são percebidas, pois é aí que a criança se torna um ser social, é aí que ela precisa lidar com o diferente, pessoas, lugares, estímulos. Geralmente, até então, ela fica com a família, que muitas vezes não é capaz de perceber que algo não está certo. O fato é que pais e profissionais da educação precisam estar atentos, respeitando a individualidade e a forma de aprendizagem de cada criança.



Postado por: Da redação

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