Pediatria

Menino de Timbó que nasceu com autismo fala 8 idiomas aos cinco anos de idade

Publicado em 14/09/2018

 Setembro Branco traz à tona o tema inclusão

 

Rafael tinha apenas dois anos e oito meses quando a mãe Juliana Lanser Mayer e o pai Valcir Edson Mayer perceberam que o filho não se sociabilizava como as outras crianças e tinha dificuldade de comunicação (não verbal). Este foi o pontapé inicial para os pais prestarem mais atenção e buscarem ajuda profissional. Depois de vários exames, veio o diagnóstico de Autismo. O menino demorou para começar a falar e as primeiras palavras foram em inglês. Rafael surpreendeu ainda mais quando, aos quatro anos de idade, já falava inglês fluente e o mais impressionante: sem nenhum curso e nem mesmo com alguém da família que falasse o idioma. Juliana conta que a família comprou um aparelho eletrônico em que ele via vídeos e sempre escolhia os vídeos em inglês, o que o fez aprender o idioma e desenvolver a fala.


Hoje, aos seis anos, ele sabe se comunicar em oito idiomas: Português, Inglês, Libras, Russo, Japonês, Esperanto, Espanhol, Italiano e Alemão. E atualmente, está com hiperfoco no Francês/Russo. Juliana conta que o inglês e o português são fluentes e que as demais línguas não sabem exatamente em que estágio está, pois ninguém da família sabe falar e não tem pessoas para dar um feedback. “Tudo isso foi vendo vídeos pela Internet. Ele grava tudo o que ouve e vê, tem uma memória incrível”, diz.


A mãe conta que o Rafael, assim como a maioria dos autistas, possui um grau de hiperfoco, característica comum dentro do TEA (Transtorno do Espectro Autista), onde, por exemplo, uns gostam muito de dinossauros e aprendem tudo sobre eles, outros de música e conseguem aprender uma melodia sem ler uma partitura. “O Rafael gosta de línguas e com isto ele se torna muito bom e aprende com facilidade novos idiomas, além de gostar muito de letras e números”, comenta.


O tema "Inclusão", que virou uma palavra constante no vocabulário de Juliana, também vem à tona com as discussões durante o Setembro Branco, o mês da inclusão. No cotidiano, a criança e a família enfrentam alguns desafios. “Fisicamente o Rafael tem hipotonia, que é a redução do tono muscular, e isso traz alguns desafios dos quais trabalhamos para sua melhora a cada dia. Já cognitivamente seria a dificuldade em compreender metáforas, gírias e duplo sentido, os famosos códigos sociais, afinal sua mente funciona melhor com lógicas, objetividade e sentido literal e nós costumamos ser prolixos, redundantes e com vocabulário rico em gírias e ditado populares dos quais são um desafio para autistas”, explica a mãe.


Rafael tem três irmãos: a Letícia, de 13 anos, o Guilherme, de 10 anos, e a Gabrielly, de três. “Ele adora os irmãos e eu diria até que eles são grandes responsáveis por tirar o Rafael o tempo todo da zona de conforto promovendo uma socialização e interação diária. Obviamente que, se deixarmos, o Rafael buscará o isolamento ou por brincadeiras sozinho, com lógicas e sequências, longe de metáforas/fantasias que são coisas das quais ele possui um grau de dificuldade. Os irmãos sabem das suas limitações e dificuldades, mas isso não os impede de incentivá-lo a construir brincadeiras das quais eles possam juntos compreender, brincar e interagir, respeitando a individualidade de cada um. Afinal, os quatro têm personalidades totalmente diferentes e por si só já vivemos uma diversidade dentro de casa”, conta.
 
A busca por informações sobre o assunto e o apoio por parte da família faz toda a diferença. “Nós, enquanto família, buscamos nos unir cada vez mais e levar informação sobre autismo para todos, porém sabemos que para maioria das famílias a inclusão, o preconceito velado/disfarçado e a busca por terapias acessíveis, espaços inclusivos e escolas preparadas para receber autistas ainda é uma realidade difícil e que precisa de suporte, apoio e incentivos de toda ordem”, destaca Juliana.

 

Busca pelo desenvolvimento e independência

O Autismo não tem cura e é um distúrbio neurológico que dificulta a comunicação com as outras pessoas. Desde o diagnóstico, Rafael já fez tratamento com especialistas de diversas áreas para melhorar a fala e se comunicar. O objetivo dos pais é que ele tenha o máximo de independência possível.

 

No que se refere à educação, o Rafael atualmente estuda em uma unidade pré-escolar municipal em Timbó. “Ele está incluído, os amiguinhos adoram ele, toda equipe escolar é por essência inclusiva e isso faz toda diferença, a parceria família/escola funciona de forma tranquila, harmônica e principalmente contribuindo para felicidade em primeiro momento do Rafael. Ele tem alguns desafios nos intervalos por buscar isolamento, mas sempre vem um amiguinho puxar por ele e assim auxiliar para que ele construa seu próprio jeitinho de socializar.”

 

No ano que vem a família estará morando em Blumenau e terá várias mudanças pela frente, desde cidade, casa, escola e amiguinhos, onde tudo isso por si só já é um desafio gigante para adaptações de autistas. “Desta forma, já estou visitando algumas escolas em Blumenau, na busca de qual poderá ser a escola ideial para meus quatro filhos, mas obviamente com um olhar diferenciado para o Rafael. Não espero encontrar nada inferior do que estou tendo em Timbó, pois muito do que construímos lá foi parceria entre escola e família e neste quesito sei que posso construir uma relação incrível em Blumenau também e é isso que busco”, afirma.

 

 

Grupo de Apoio e Roda de Conversa

As experiências vivenciadas com o Rafael faz os pais estarem em uma busca constante por informações e compartilhamento de ideias sobre o assunto. Atualmente, Juliana é presidente do Grupo de Apoio Educacional AutismoS, onde são promovidas formações continuadas em  quatro municípios da região.

“Participo e sou uma das idealizadoras da Roda de Conversa que acontece uma vez por mês em Blumenau, na Uniasselvi, para falar sobre autismo com pais e interessados no assunto, assim como em Timbó iniciamos o Encontro TEA, que tem o mesmo objetivo de emponderar pais e trazer profissionais para auxílio e aprendizado mútuo. Utilizo também meu instagram(@julilansermayer) e fanpage Juli Lanser Blog para compartilhar dicas, vivências e faço lives ao vivo sempre que possível, respondendo perguntas e mostrando nosso dia a dia.  Por fim um ditado popular que costumo usar muito na minha vida é  ‘Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo’ – Provérbio Africano”, complementa Juliana.

 

 

Cada caso é único                   

Embora o caso do pequeno Rafael surpreenda, especialistas não indicam que seja ensinado língua estrangeiro muito cedo aos autistas. Esta é uma facilidade de aprendizado específica dele.

A psicóloga Raquel Lizandro explica que não há uma regra. “Na verdade não existe ‘o autismo’, mas sim, diferentes pessoas com autismo. Levando isso em consideração, podemos entender que cada caso é um caso. Cada pessoa é única. O autismo é um espectro e dentro disso há várias camadas, então a variação é bem grande, por isso é preciso sempre o auxílio de um profissional para pensar sobre”, acrescenta.

Raquel conta que a incidência é maior em meninos, não havendo uma explicação para isso, e que os sintomas comuns deste transtorno são marcados pela alteração na capacidade de comunicação e interação social. Dificuldades de fala, bloqueios relativos à forma de expressar sentimentos e ideais, comportamentos incomuns, como comportamentos repetitivos e dificuldades nos laços sociais são alguns dos sinais.

 

Como um pai ou uma mãe podem notar que há algo de diferente com seu filho a ponto de buscar ajuda com um especialista?

Raquel diz que, geralmente, os sinais se tornam mais fáceis de serem observados a partir dos dois ou três anos, onde o prejuízo na interação social fica mais evidente, a criança demonstra dificuldade em se comunicar e brincar com outras crianças. Mas também existem, segundo a psicóloga, sinais possíveis de serem observados anteriormente, como a falta de interesse e reação a sons e estímulos ou a hipersensibilidade a eles, o que aparece muitas vezes na dificuldade alimentar e na repulsa a toques, falta de expressões faciais e atraso na linguagem. Caso ocorra a percepção, Raquel afirma que a família deve procurar uma rede de apoio, da própria escola se houver, do pediatra, neuropediatra, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, psicólogo. “O diagnóstico é clínico e, por isso, não há um exame que comprove o autismo, é necessário um bom profissional ou uma equipe profissional preparada para emitir tal diagnóstico”, conclui a psicóloga.

 



Postado por: Josiane Caitano

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